Episódio 30 – Há mais alguém na biblioteca

Episódio30

É noite. Vito olha seriamente para Bianca, e diz:

Vito – Bianca, temos uma visita. Carlo está aqui.

Bianca – Carlo? Oh, mas isto é sensacional!

Vito – É, sim. Ele está na biblioteca. Precisamos descer agora, porque ele já deve estar cansado de esperar. Ele tem uma história para contar. Isto sim você vai achar sensacional.

Bianca – Que história é esta? Adoro as histórias de Carlo.

Vito – Vou adiantar o assunto. Ele se casou, mas foi abandonado.

Bianca – Ah! Esta história.

Vito – Você já sabia?

Bianca – Sim. Mas não deu tempo de te contar. Fiquei sabendo quando entramos naquele empório, hoje à tarde. Enquanto você comprava tomates, reencontrei a Vidente. Ela me contou tudo.

Vito – De fato, Carlo disse que alguns sabiam deste casamento. Se você já sabia, então vamos descer e falar de outros assuntos com Carlo.

O casal desceu até a biblioteca. No caminho, Enrico avisou que havia servido vinho a Carlo, e que havia mais uma pessoa na biblioteca. Mas, quando Vito perguntou quem era, Enrico apenas apontou para a porta da biblioteca, e se retirou para a cozinha. Vito e Bianca se aproximaram da porta da biblioteca. Quando a abriram, Carlo estava sentado em uma poltrona e segurava um cálice de vinho tinto e, com a outra mão, folheava um livro que estava em cima de uma mesinha. Ao seu lado, em pé, estava a Vidente. Embora o casal não tenha se surpreendido, sabia que algo estava acontecendo.

Carlo voltou-se para o casal e disse, como se quisesse quebrar o gelo:

Carlo – Posso levar este Baudolino emprestado?

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Continua no próximo episódio.

> Baudolino é um dos livros de autoria de Umberto Eco.

> No blog “Mangia che te fa bene” pode ser encontrada uma ótima receita, no post “Quadradinhos aveludados de limão (Lemon Velvet Squares)“.

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Episódio 29 – Tudo na vida tem um motivo

Tudo na vida tem um motivo. Mas quem saberia dizer qual o motivo para cada coisa na vida? O sofrimento é necessário? Por que temos que passar por momentos difíceis em nossas vidas? Não seria mais simples se todos se abrissem uns aos outros, esquecendo a cobiça e o poder, e formando uma enorme família mundial, universal? Estas indagações giravam na mente de Vito. Ele começava a admitir que tinha sido um erro abandonar a trattoria em São Paulo e viajar com Bianca a Palermo, sua cidade natal, na Itália.

Nos pensamentos de Vito, estava se formando uma conclusão: a de que na magia dos momentos, o lugar é mero cenário. Carlo tinha se casado com uma “mulher da vida”, como ele mesmo dizia. Embora tenha rido junto com seu velho amigo, Vito tinha pena de Carlo, porque ele tinha sido abandonado. A cidade através da qual Vito e Bianca corriam quando pequenos, não mais existia. Havia a casa. Havia Carlo. Havia a Vidente. E também havia Enrico. E o que mais? Apenas a saudade de São Paulo.

Vito pensava: “nunca devíamos ter saído de lá”. E se perguntava: “o que estamos fazendo aqui?”. Enquanto isso, aproximava-se da casa, para onde se dirigia a pé, ao lado de Carlo. Este, por sua vez, estava calado.

Quando chegaram à casa, passaram pelo portão e ouvia-se o som da água que Enrico estava jogando nas plantas do jardim, naquele início de noite. Enrico apenas acenou ao longe. Vito e Carlo entraram.

O silêncio reinava dentro da casa. Vito pensou em gritar o nome de Bianca, para saber onde ela estava, mas aquele silêncio era mais forte do que ele. Resolveu, por isso, levar Carlo até a pequena biblioteca que havia na casa, e pedir para que aguardasse, enquanto procurava Bianca.

Vito foi até o quarto. Ao entrar, viu que a porta do banheiro estava entreaberta e a luz estava acesa. Aproximou-se e viu Bianca, na cena mais comovente que havia presenciado desde há muito tempo. Bianca estava sentada, com as pernas cruzadas, na beirada da banheira, com os seus cabelos louros molhados, penteados para trás, vestindo seu roupão branco, exibindo seu liso pescoço rodeado por uma fina corrente de ouro. Vito notou que Bianca pintara as unhas das mãos e dos pés de um vermelho intenso, e no ar sentia-se o perfume que Bianca estava usando: Guerlain – Insolence. No entanto, Bianca chorava. Era um choro contido. Suas lágrimas escorriam pelas suas faces lisas.

Ela ainda não tinha percebido a presença de Vito. Ele, então, deu um passo a frente em direção a Bianca, e neste movimento ela o notou ali e, surpresa, levantou-se e se jogou, ainda chorando, nos braços dele. Então, ela disse:

Bianca – Não quero mais ficar aqui! Quero ir embora deste lugar!

Vito não podia acreditar no que ouvia. No início, ambos estavam felizes e aliviados por terem voltado a Palermo. Depois, Vito já não via sentido em estarem em Palermo novamente. E, agora, Bianca diz que deseja ir embora de Palermo. Vito só conseguia pensar em uma coisa: que tudo na vida tem um motivo, mas quem saberia dizer qual o motivo para cada coisa na vida?

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Continua no próximo episódio.

E, enquanto não vem o próximo episódio, por que não se deliciar com as chamadas “Cavaquinhas da Tia Odette“, cuja receita se encontra no blog “A minha cozinha“?

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Episódio 28 – Sunglasses

Vito não sabia que Carlo tinha se casado. Por isso, pediu que seu amigo falasse sobre este casamento e sobre o que aconteceu para que a sua mulher o abandonasse.

Carlo – Sim, Vito. Eu me casei. Poucos sabiam deste casamento, porque achei que seria melhor que não soubessem. Passei alguns anos com a minha esposa, mas há poucos dias, ela se foi.

Vito – Como é o nome dela?

Carlo – Todos a chamavam por um apelido: Sunglasses. Ela nunca tirava seus óculos de sol Versace, exceto quando estava dentro de casa.

Vito – Sunglasses? Engraçado… quando eu ainda estava no Brasil, um familiar aqui de Palermo falou-me exatamente sobre uma mulher com apelido de Sunglasses. Mas pelo que ele disse, não pode ser a mesma pessoa. Que coincidência!

Carlo – O que ele disse?

Vito – Nada que pudesse se relacionar à sua esposa, acredite!

Carlo – Eu insisto.

Vito – Tudo bem. É que Sunglasses seria uma, digamos, “mulher da vida” estrangeira, mas que estaria em lugares mais afastados de Palermo.

Carlo – É certo que estamos falando da mesma pessoa.

Vito – Vejo que você está mesmo com raiva de sua esposa.

Carlo – Não. Estou com saudades dela.

Vito – Então por que fez aquela comparação?

Carlo – Não fiz nenhuma comparação. A Sunglasses, minha esposa, é uma “mulher da vida”. Sempre foi. E eu sabia disso quando me casei com ela.

Vito ficou boquiaberto. Não sabia como reagir àquela informação. Já tinha ouvido falar de casos parecidos. Mas, agora, tratando-se de Carlo, ficou muito surpreso. Carlo explicou que, por ali, ninguém sabia que sua esposa era uma, como diziam, “mulher da vida”. Quando ia ganhar seu dinheiro, realmente se dirigia a lugares mais afastados de Palermo. Se alguém desconfiava de alguma coisa, não se atrevia a dizer, porque Carlo é muito respeitado onde mora e onde trabalha. Por isso, Carlo nunca foi importunado por causa de sua esposa.

Carlo – Agora, no entanto, ela se foi. Não tenho mais seu carinho, seu sorriso, seu abraço…

Vito – Carlo, meu amigo! Tome seu café, e vamos até a minha casa. Você precisa de um vinho.

E ambos se puseram a rir da situação.

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Continua no próximo episódio.

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Episódio 27 – Reencontro de Vito e Carlo

Vito entrou no café, subindo os três degraus da entrada, e se dirigiu a Carlo. Este continuava olhando a sua xícara de café, agora mexendo seu conteúdo com um colher. Vito dirigiu a palavra a Carlo:

Vito – Com licença, posso me sentar aqui?

Carlo nem sequer tirou os olhos da xícara, e disse, da forma mais grosseira possível:

Carlo – Não sou o dono deste lugar. Só quero tomar o meu café em paz.

Foi então que Vito tornou a notar as lágrimas de Carlo, e ficou muito preocupado. Não sabia se continuava tentando falar com ele, ou se ia embora. Mas a saudade falou mais alto, e resolveu tentar falar com ele, mais uma vez, colocando a mão em seu ombro.

Vito – Carlo, sou eu… Vito… o que aconteceu?

Carlo virou-se, ainda em lágrimas, e olhou bem para Vito, como se tivesse acabado de acordar.

Carlo – Vito? Vito… Hum… — Carlo teve um sobressalto — Vito!

Vito – Sim!

Carlo – Vito! Vito! Não acredito! Ah, Vito! Um abraço, aqui, neste infeliz! Nunca pensei que fosse vê-lo novamente! Eu não esperava mais esta emoção na minha vida!

Vito – Carlo! Senti muita saudade! Não só eu, como a Bianca também!

Carlo – Ah, Bianca! Aquele doce de menina! E onde ela está agora?

Vito – Ficou em casa dormindo.

Carlo – Então ela também está aqui, em Palermo!

Vito – Sim! Você acha que eu iria a algum lugar sem ela?

Neste momento, Carlo parou, como se tivesse ficado assustado com algo. Passados alguns segundos, explodiu em lágrimas, abraçando Vito.

Carlo – Vito! Não tenho mais vida! Estou no fim! Nada mais vale a pena para mim!

Vito – Acalme-se, Carlo! Sente-se… diga-me o que aconteceu. Por que está tão triste, você que sempre foi uma pessoa alegre e inabalável?

Carlo – Minha esposa… abandonou-me!

Vito – Eu não soube que você tinha se casado…

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Continua no próximo episódio.

Você pode conhecer uma ótima receita de creme de legumes no post “Creme de legumes à antiga“, no blog Elvira’s Bistrot.

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Episódio 26 – Carlo estava no café

Vito resolveu caminhar pela cidade, neste início de noite, enquanto Bianca continuava a dormir em casa. Havia algumas ruas pelas quais Vito gostava de caminhar. As que mais apreciava eram as que tinham os cafés cheios de gente. Ao contrário de Bianca – que preferia se esconder na adega para refletir – Vito sentia-se mais concentrado em meio às pessoas desconhecidas, que andavam para todos os lados e não paravam de falar.

É a primeira vez que Vito consegue dar um tempo a si mesmo, desde que chegaram a Palermo. Agora, tudo estava em ordem, as malas desfeitas, e Bianca estava dormindo. Vito sentia um misto de prazer e culpa. Prazer porque se sentia aliviado por estar por um momento longe de Bianca – prazer este que não imaginaria que pudesse sentir, dado o amor que tinha por ela. Ele mesmo ficou surpreso com este prazer de estar só. A culpa, sentia pelo mesmo motivo. O que o consolava era a possibilidade de que Bianca pensasse a mesma coisa.

Vito caminhava e olhava as pessoas ao seu redor. Uma leve brisa aliviou o calor, e Vito se sentia cada vez melhor. Por algum motivo desconhecido, parou em frente a um café. Tratava-se de um pequeno sobrado, com toldos marrons com escritos em branco, e praticamente toda a fachada era de vidro transparente, de modo a possibilitar que pessoas de fora vissem o interior do café, e as pessoas de dentro vissem o seu exterior.

Havia balcões encostados nos vidros que davam para a rua. Nestes balcões os clientes podiam se sentar, mas havia também mesas no café. No balcão, Vito reparou em um homem sentado em dos altos bancos de aço e couro. Era um homem de aproximadamente sessenta anos, com cabelos brancos. O homem usava um paletó marrom, e uma camisa branca, sem gravata. Ele olhava para dentro de sua xícara de café, enquanto nela despejava um sachê de açúcar.

Com uma das mãos, o homem esfregava os olhos. Vito notou que o homem estava enxugando lágrimas. Por isso, ficou mais tempo olhando, com curiosidade. Quando o homem levantou a cabeça para olhar a rua, Vito teve um sobressalto: era Carlo!

Carlo não percebeu que Vito estava na rua, porque esta estava muito movimentada. Vito ficou emocionado em reencontrar Carlo, e esqueceu que notou suas lágrimas, segundos antes. Vito foi imediatamente em direção ao café, para falar com ele.

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Continua no próximo episódio.

Falando em café, há uma ótima receita de coffeecake (que significa um bolo, ou mesmo um pão doce, que se costuma servir e saborear acompanhado de café) no post “Triple Berry Coffeecake“, no blog Cinara’s Place.

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Episódio 25 – Lídima, vera delícia

Bianca ainda chorava sob o peso da saudade de seus tempos passados, mas o choro já estava mais leve.

Vidente – Volte para casa. Dê um tempo, por hoje, querida. Você tem muito tempo para pensar. Você fez bem em se afastar do restaurante por um tempo.

Ninguém conseguia imaginar como a vidente sabia tanto. Ninguém havia lhe contado sobre a Trattoria, nem sobre o afastamento de Bianca e Vito.

Bianca – Sim… devo descansar… pela primeira vez em anos, preciso descansar…

Vito – Vamos…

Vidente – Quero que voltem aqui.

Bianca ficou surpresa. Ela estava acostumada a que outras pessoas lhe dessem satisfação de voltar, porque é ela quem sempre dominava o espaço dos encontros (ou seja, a Trattoria). Agora ela é quem devia voltar a um ponto de encontro não dominado por ela. A vidente percebeu a sua surpresa, e se apressou em dizer:

Vidente – Ora, eu também sinto saudades!

Os três se abraçaram. Vito e Bianca foram para casa, onde Enrico esperava no jardim da frente. Ao chegarem na casa, Vito se afastou de Bianca e foi até Enrico. Vito murmurou alguma coisa no ouvido de Enrico, e este saiu correndo pelo portão da casa. Depois, Bianca se aproximou.

Bianca – O que foi? Aconteceu algo?

Vito – Não aconteceu nada, Bibi. — Vito a bejou, segurando seu rosto com ambas as mãos. — Vamos subir. Você precisa descansar.

Bianca – Preciso de outra coisa…

Foi um final de tarde extraordinário. No início da noite, Bianca estava adormecida em seu quarto. Vito havia descido até a cozinha, onde era esperado por Enrico.

Vito – Trouxe o que eu pedi?

Enrico – Claro. Está tudo aqui.

Vito – Achou a maria-mole?

Enrico – Achei. Está aqui também.

Vito – Ótimo. Obrigado.

Enrico – Ao seu dispor. Com licença.

Enrico se retirou para o jardim. Já estava anoitecendo, e Vito estava diante de alguns ingredientes que havia pedido para Enrico buscar, na tarde daquele dia. Estava tudo dentro de dois grandes pacotes de papel pardo, daqueles de nostálgicos empórios.

Vito pegou uma tijela grande de aço e começou a dissolver um punhado de maria-mole em água fervente. Depois despejou graciosamente um vidro de leite de coco, como se fosse ouro líquido. À mistura acrescentou leite condensado e creme de leite, lidando com cada ingrediente como se lida com diamantes.

Vito batia os ingredientes a mão, com um vigor inigualável. Parecia – e ele sentia – que ficava mais forte quando trabalhava na cozinha, fazendo qualquer tipo de comida. O que estes ingredientes tinham de tão especial, que faziam Vito ficar tão sério e concentrado? Para ele, todos os alimentos tinha algo mágico, e nenhum alimento era vulgar (por isso,Vito não entendia porque certos chefes se recusam a comer cachorro-quente, por exemplo).

Vito colocou aquela onda cremosa em uma forma e colocou na geladeira. Depois, cortaria morangos em pequenos pedaços e decoraria o resultado com eles, e também com folhas de hortelã. Vito foi até o jardim, satisfeito. Estava renovado. Depois resolveu ir caminhar pela cidade, enquanto Bianca dormia.

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Continua no próximo episódio.

Este episódio é dedicado ao blog A Taste in Heaven, de autoria de Vivianne, que sempre coloca simpáticos comentários aqui. A receita feita por Vito, neste episódio, é inspirada no post “Delícia de Verão“, publicado no blog de Vivianne.

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Episódio 24 – O peso da distância

A vidente disse que Carlo não estava em sua loja. Isto não seria uma coisa incomum, se não se tratasse de Carlo, que ainda hoje era conhecido por “sempre estar em sua loja”. Mesmo para os mais otimistas, a ausência de Carlo só poderia significar que algo muito grave teria acontecido com ele.

De início, Vito apenas ficou em dúvida. E Bianca não se importou muito. Mas, aos poucos, o casal foi sentindo o peso crescente do vazio que a distância havia criado entre eles e a sua terra Natal. A vidente – vidente que era – viu isto. Não disse nada, e apenas observou e aguardou.

Vito e Bianca se sentiam tão confortáveis ali, junto à vidente, que não se importaram em disfarçar a sua quietude e reflexão. E a vidente, como tinha todo o tempo que precisasse para fazer o que bem quisesse, se sentia feliz em poder ficar ali, diante do casal, apenas esperando que eles se adaptassem às suas novas velhas vidas.

Bianca tremia e mal conseguia segurar seu copo de suco de limão. Com a outra mão, segurava a de Vito, que estava com a cabeça abaixada, apenas refletindo. Ele estava sentido a vibração da trêmula Bianca, e pôs-se a segurar sua mão com mais força. Uma lágrima escorreu do canto do olho de Bianca.

A vidente tomou seu copo de suco e o colocou de lado. Depois, tomou a mão de Bianca, e segurou-a maternalmente. O silêncio continuava. E o peso aumentava. Um peso invisível, mas sólido como um tijolo jogado contra uma janela de vidro transparente.

Bianca não conseguiu se conter. Explodiu num pranto descontrolado, lamuriando em um tom de voz mais grave do que o de costume, como se fizesse muita força para erguer o peso insuportável.

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Continua no próximo episódio.

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