Episódio 36 – A aranha na adega

Não, Rubi nunca fora uma “mulher da vida”. Ela o dizia a Carlo para que ele nunca se iludisse. Bianca sugeriu que todos fossem até a cozinha e, chegando lá, pediu que Vito tomasse conta das visitas enquanto descia até a adega. O olhar de Bianca foi preciso, e Vito entendeu que não devia incomodá-la enquanto estivesse na adega, por mais que demorasse lá embaixo.

Binca desceu, então, até a adega. Sentou-se no chão de pedrinhas, em um canto iluminado por uma lâmpada halógena. Estava começando a ficar deprimida e desesperada. Não conseguia compreender o que fazia ali. Sentiu um profundo vazio e não desejava ver mais ninguém. Ela então disse a si mesma:

Bianca – Por que essas pessoas estão na minha casa? Aliás, esta é a minha casa? Sinto falta de São Paulo. Quero abraçar a minha amiga Cláudia. Quero servir um tiramisù para clientes sexies e importantes. Onde estávamos com a cabeça quando resolvemos largar tudo e vir a Palermo. Palermo não existe mais. Ao menos a nossa antiga Palermo não existe mais! Quero voltar para a minha casa. A minha verdadeira casa, em São Paulo. Preciso ligar para a Cláudia…

Bianca tira o celular de seu bolso, e liga para sua amiga Cláudia, que está no Brasil. Depois de chamar algumas vezes, Cláudia atende:

Cláudia – Bibi?

Bianca – Dinha… Por favor…

Mal começou a falar, Bianca entrou em uma crise de choro e não conseguia se controlar…

Cláudia – Bibi? Fala comigo! Bibi? Bibi?

Bianca ainda chorava, soltando gemidos graves. Ela tremia. Sua mãos tentavam sustentar a cabeça, enquanto o celular caía no chão da adega. Bianca se encolhia cada vez mais, sem conseguir controlar sua crise de choro. Ela apenas conseguia dizer “por quê? por quê?”. Inutilmente, Cláudia ainda tentava falar com Bianca, mas esta já não ouvia, pois o celular estava no chão.

No meio do seu desespero, Bianca viu uma coisa que a fez parar. Diante de seus olhos, sob a lâmpada halógena, viu uma aranha descendo por uma teia. A aranha parou no ar, diante de seus olhos, e permaneceu esfregando as patas no fio da teia. A aranha era prateada e brilhava sob a luz. Bianca ainda soluçava, mas conseguira se controlar, tendo se esquecido de tudo para olhar a aranha.

A aranha continuava suspensa no ar, mexendo suas patas, enquanto Bianca a observava, maravilhada. Os olhos de Bianca brilhavam. Seu rosto perfeito encarava a aranha e um leve sorriso era visível em sua boca. Foi capaz de contar e recontar o número de patas que tinha a aranha. Sempre parecia mais do que oito.

O inseto ameaçou subir pela teia, mas Bianca não queria isso. Ergueu a mão, como se quisesse mandar que a aranha parasse. Involuntariamente, disse “não”, num sussurro que, para a aranha e a teia, foram um furacão. O leve sopro de Bianca levou a aranha para o ar, fazendo-a se perder em alguma sombra, para nunca mais ser encontrada novamente.

Bianca ficou profundamente frustrada por ter perdido a única visão que a inspirara nos últimos meses. Pegou o celular e, sem verificar se Cláudia ainda estava lá – pois sabia que estava – disse:

Bianca – Avise a todos que estarei de volta em dois dias.

……….

Continua no próximo episódio.