Episódio 26 – Carlo estava no café

Vito resolveu caminhar pela cidade, neste início de noite, enquanto Bianca continuava a dormir em casa. Havia algumas ruas pelas quais Vito gostava de caminhar. As que mais apreciava eram as que tinham os cafés cheios de gente. Ao contrário de Bianca – que preferia se esconder na adega para refletir – Vito sentia-se mais concentrado em meio às pessoas desconhecidas, que andavam para todos os lados e não paravam de falar.

É a primeira vez que Vito consegue dar um tempo a si mesmo, desde que chegaram a Palermo. Agora, tudo estava em ordem, as malas desfeitas, e Bianca estava dormindo. Vito sentia um misto de prazer e culpa. Prazer porque se sentia aliviado por estar por um momento longe de Bianca – prazer este que não imaginaria que pudesse sentir, dado o amor que tinha por ela. Ele mesmo ficou surpreso com este prazer de estar só. A culpa, sentia pelo mesmo motivo. O que o consolava era a possibilidade de que Bianca pensasse a mesma coisa.

Vito caminhava e olhava as pessoas ao seu redor. Uma leve brisa aliviou o calor, e Vito se sentia cada vez melhor. Por algum motivo desconhecido, parou em frente a um café. Tratava-se de um pequeno sobrado, com toldos marrons com escritos em branco, e praticamente toda a fachada era de vidro transparente, de modo a possibilitar que pessoas de fora vissem o interior do café, e as pessoas de dentro vissem o seu exterior.

Havia balcões encostados nos vidros que davam para a rua. Nestes balcões os clientes podiam se sentar, mas havia também mesas no café. No balcão, Vito reparou em um homem sentado em dos altos bancos de aço e couro. Era um homem de aproximadamente sessenta anos, com cabelos brancos. O homem usava um paletó marrom, e uma camisa branca, sem gravata. Ele olhava para dentro de sua xícara de café, enquanto nela despejava um sachê de açúcar.

Com uma das mãos, o homem esfregava os olhos. Vito notou que o homem estava enxugando lágrimas. Por isso, ficou mais tempo olhando, com curiosidade. Quando o homem levantou a cabeça para olhar a rua, Vito teve um sobressalto: era Carlo!

Carlo não percebeu que Vito estava na rua, porque esta estava muito movimentada. Vito ficou emocionado em reencontrar Carlo, e esqueceu que notou suas lágrimas, segundos antes. Vito foi imediatamente em direção ao café, para falar com ele.

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Continua no próximo episódio.

Falando em café, há uma ótima receita de coffeecake (que significa um bolo, ou mesmo um pão doce, que se costuma servir e saborear acompanhado de café) no post “Triple Berry Coffeecake“, no blog Cinara’s Place.

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Episódio 25 – Lídima, vera delícia

Bianca ainda chorava sob o peso da saudade de seus tempos passados, mas o choro já estava mais leve.

Vidente – Volte para casa. Dê um tempo, por hoje, querida. Você tem muito tempo para pensar. Você fez bem em se afastar do restaurante por um tempo.

Ninguém conseguia imaginar como a vidente sabia tanto. Ninguém havia lhe contado sobre a Trattoria, nem sobre o afastamento de Bianca e Vito.

Bianca – Sim… devo descansar… pela primeira vez em anos, preciso descansar…

Vito – Vamos…

Vidente – Quero que voltem aqui.

Bianca ficou surpresa. Ela estava acostumada a que outras pessoas lhe dessem satisfação de voltar, porque é ela quem sempre dominava o espaço dos encontros (ou seja, a Trattoria). Agora ela é quem devia voltar a um ponto de encontro não dominado por ela. A vidente percebeu a sua surpresa, e se apressou em dizer:

Vidente – Ora, eu também sinto saudades!

Os três se abraçaram. Vito e Bianca foram para casa, onde Enrico esperava no jardim da frente. Ao chegarem na casa, Vito se afastou de Bianca e foi até Enrico. Vito murmurou alguma coisa no ouvido de Enrico, e este saiu correndo pelo portão da casa. Depois, Bianca se aproximou.

Bianca – O que foi? Aconteceu algo?

Vito – Não aconteceu nada, Bibi. — Vito a bejou, segurando seu rosto com ambas as mãos. — Vamos subir. Você precisa descansar.

Bianca – Preciso de outra coisa…

Foi um final de tarde extraordinário. No início da noite, Bianca estava adormecida em seu quarto. Vito havia descido até a cozinha, onde era esperado por Enrico.

Vito – Trouxe o que eu pedi?

Enrico – Claro. Está tudo aqui.

Vito – Achou a maria-mole?

Enrico – Achei. Está aqui também.

Vito – Ótimo. Obrigado.

Enrico – Ao seu dispor. Com licença.

Enrico se retirou para o jardim. Já estava anoitecendo, e Vito estava diante de alguns ingredientes que havia pedido para Enrico buscar, na tarde daquele dia. Estava tudo dentro de dois grandes pacotes de papel pardo, daqueles de nostálgicos empórios.

Vito pegou uma tijela grande de aço e começou a dissolver um punhado de maria-mole em água fervente. Depois despejou graciosamente um vidro de leite de coco, como se fosse ouro líquido. À mistura acrescentou leite condensado e creme de leite, lidando com cada ingrediente como se lida com diamantes.

Vito batia os ingredientes a mão, com um vigor inigualável. Parecia – e ele sentia – que ficava mais forte quando trabalhava na cozinha, fazendo qualquer tipo de comida. O que estes ingredientes tinham de tão especial, que faziam Vito ficar tão sério e concentrado? Para ele, todos os alimentos tinha algo mágico, e nenhum alimento era vulgar (por isso,Vito não entendia porque certos chefes se recusam a comer cachorro-quente, por exemplo).

Vito colocou aquela onda cremosa em uma forma e colocou na geladeira. Depois, cortaria morangos em pequenos pedaços e decoraria o resultado com eles, e também com folhas de hortelã. Vito foi até o jardim, satisfeito. Estava renovado. Depois resolveu ir caminhar pela cidade, enquanto Bianca dormia.

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Continua no próximo episódio.

Este episódio é dedicado ao blog A Taste in Heaven, de autoria de Vivianne, que sempre coloca simpáticos comentários aqui. A receita feita por Vito, neste episódio, é inspirada no post “Delícia de Verão“, publicado no blog de Vivianne.

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Episódio 24 – O peso da distância

A vidente disse que Carlo não estava em sua loja. Isto não seria uma coisa incomum, se não se tratasse de Carlo, que ainda hoje era conhecido por “sempre estar em sua loja”. Mesmo para os mais otimistas, a ausência de Carlo só poderia significar que algo muito grave teria acontecido com ele.

De início, Vito apenas ficou em dúvida. E Bianca não se importou muito. Mas, aos poucos, o casal foi sentindo o peso crescente do vazio que a distância havia criado entre eles e a sua terra Natal. A vidente – vidente que era – viu isto. Não disse nada, e apenas observou e aguardou.

Vito e Bianca se sentiam tão confortáveis ali, junto à vidente, que não se importaram em disfarçar a sua quietude e reflexão. E a vidente, como tinha todo o tempo que precisasse para fazer o que bem quisesse, se sentia feliz em poder ficar ali, diante do casal, apenas esperando que eles se adaptassem às suas novas velhas vidas.

Bianca tremia e mal conseguia segurar seu copo de suco de limão. Com a outra mão, segurava a de Vito, que estava com a cabeça abaixada, apenas refletindo. Ele estava sentido a vibração da trêmula Bianca, e pôs-se a segurar sua mão com mais força. Uma lágrima escorreu do canto do olho de Bianca.

A vidente tomou seu copo de suco e o colocou de lado. Depois, tomou a mão de Bianca, e segurou-a maternalmente. O silêncio continuava. E o peso aumentava. Um peso invisível, mas sólido como um tijolo jogado contra uma janela de vidro transparente.

Bianca não conseguiu se conter. Explodiu num pranto descontrolado, lamuriando em um tom de voz mais grave do que o de costume, como se fizesse muita força para erguer o peso insuportável.

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Continua no próximo episódio.

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