Episódio 18 – Quero sentar em um banco na Villa Giulia

Tudo o que Vito e Bianca queriam era não precisarem se explicar aos familiares e amigos, a respeito da decisão que tomaram de deixar a Trattoria para viajar pelo mundo. O casal não mudaria de idéia, mas enfrentariam violentos protestos entre os seus mais próximos.

Foi exatamente o que aconteceu. Vito contou ao seu amigo Carlo que logo deixaria a Trattoria. Carlo achou que fosse brincadeira, e riu muito. Demorou a perceber que Vito falava sério. O mesmo aconteceu com Cláudia, amiga de Bianca. A diferença foi a de que Cláudia reagiu bem, quando percebeu que a decisão era séria. Deu apoio a Bianca, como sempre fazia. Já Carlo reagiu com dois tapas na cabeça de Vito. “Você deve estar louco!”, dizia Carlo. Mas depois aceitou. Não podia fazer nada para impedi-lo de largar a Trattoria.

Nas famílias de Vito e de Bianca, as reações foram diversas. Tudo foi discutido na véspera do Natal. Não foi um momento ideal para comunicar à família sobre a decisão do casal, mas Vito e Bianca estavam ansiosos. Era comum que a família toda se reunisse no Natal. Por isso, ficou mais fácil falar sobre a decisão, já que estavam todos ali. Havia familiares em outros lugares, como aqueles que permaneceram na Itália. Estes também seriam informados.

Em nenhum momento Vito e Bianca ficaram em dúvida sobre se a decisão que tomaram era mesmo correta. A única preocupação deles era a de não magoar aqueles que lhes são próximos. Mas o casal sabia que estavam cercados de pessoas compreensivas (embora muitas vezes explosivas) e que respeitariam suas decisões.

Bianca e Vito não são pessoas vulgares nem volúveis. Pelo contrário: são pessoas firmes e constantes. A decisão que tomaram era muito mais racional do que emocional, porque sabiam que precisavam de uma mudança.

O casal produziu a sua própria riqueza. São, sim, ricos. Mas fazem jus a cada centavo que possuem e procuram ajudar os outros da maneira como podem. Fazem questão de participar de cada momento de suas vidas. Mesmo que Joana (a supervisora do apartamento do casal) esteja ali para ajudá-los, não é raro que Bianca e Vito passem algumas tardes de segunda-feira (o dia da semana em que a Trattoria fica fechada) limpando e arrumando o apartamento onde moram. Gostam de fazer isso.

Enfim, todos foram avisados da decisão do casal. Não foi fácil. Agora Bianca e Vito estavam em seu apartamento. O ar cheirava a baunilha e maçã-verde, vindo de uma mistura de essências aquecida por um pequena vela. O casal estava sentado no amplo tapete persa, no chão da sala de estar do apartamento. Estavam frente a frente, cada um com um cálice de vinho tinto. O ar estava fresco. Chovia e as amplas janelas do apartamento estavam molhadas por fora. Ouviam-se trovões. As luzes estavam apagadas e o ambiente era iluminado por algumas velas. O clima estava perfeito, mas em nenhum momento pensaram em desistir da decisão que tinham tomado.

Bianca começou a falar:

Bianca – Estou feliz por nossa decisão.

Vito – Eu também. Não foi fácil convencer a todos.

Bianca – Eles compreenderam.

Vito – Sim. Compreenderam, felizmente.

Bianca – O que eu mais quero, agora, é sentar alguns minutos com você em um banco da Villa Giulia em Palermo, sob o sol da tarde.

Vito – Nosso primeiro destino será Palermo, então.

Bianca – Sim, será incrível! Podemos ver alguns amigos na Vucciria também.

Vito – A Vucciria!

Não conseguiram dizer mais nada. Apenas ficaram se olhando. Realmente havia algo de novo ali. Estavam um contemplando o outro, àquela luz de velas e àquele som da chuva e dos trovões. Algo mágico acontecia.

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Continua no próximo episódio.

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Episódio 17 – Na padaria do Joaquim

Bianca e Vito, finalmente, chegaram à padaria do Joaquim para tomarem seu café-da-manhã. Joaquim é um homem gordo e alegre, bastante calvo, e com um enorme bigode branco. Estava sempre na padaria, e gostava muito de Vito e de Bianca. Quando os viu, ficou muito feliz e maravilhado.

Joaquim – Não acredito! O que vocês dois estão fazendo na minha padaria a esta hora? Venham, entrem logo! Vocês estão precisando comer. Olha só a cara dos dois!

Vito – Como está o senhor, Seu Joaquim?

Joaquim – Estou ótimo! Minha saúde é de ferro! Estou melhor do que nunca! Estou feliz em vê-lo, meu caro amigo! E esta mocinha aqui?

Bianca – Olá, Seu Joaquim. Estávamos com saudades.

Joaquim – Mas esta menina é um Pastel de Belém! Sentem-se, sentem-se. Vocês vão tomar um café-da-manhã delicioso hoje.

Vito – Como tudo em sua padaria!

Joaquim – Obrigado! O João já vai servi-los. Agora contem-me! Como estão os dois?

Vito – Estamos bem.

Bianca – Muito bem, ele quis dizer.

Vito – É, muito bem.

Joaquim – Ah, eu conheço este brilho nos olhos de vocês! Parece o dia em que chegaram aqui no bairro! Como vai o vosso restaurante?

Vito – Vamos abandoná-lo.

Bianca – Vito!

Vito – Mas é isso que vamos fazer. Deixe-me explicar.

Então Vito explicou tudo a Joaquim, desde o sonho da Trattoria quando ainda estavam em Palermo, até a decisão que tinham acabado de tomar. Joaquim colocou suas enormes mãos, uma no ombro de Vito e a outra no de Bianca. Ele disse que eles deviam seguir o que achassem melhor para suas vidas. Contou que foi muito difícil para ele deixar Portugal, na juventude, mas que aqui encontrou felicidade.

Vito e Bianca ficaram aliviados, porque Joaquim aceitou bem a decisão dos dois. Mas logo verão que nem todos vão aceitar a decisão deles tão bem assim.

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Continua no próximo episódio.

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Episódio 16 – Adeus, Trattoria Testafredda

Vito e Bianca estão vivendo uma nova vida, embora ainda não tenham percebido isto completamente. A turbulência, aparentemente causada por Vera Gonçalves (a crítica de cozinha) fez com que Bianca desconfiasse muito de Vito e de si mesma. Mas, quando chorou em um canto de sua adega, pode ver mais claramente a realidade.

O casal sentiu que a ducha que tomaram tinha sido a melhor coisa que havia acontecido entre os dois, nos últimos anos. Ele, em outra ocasião, negariam, mas o fato é que sentiam enorme nostalgia de Palermo. Eles podiam ir para a Itália a qualquer hora, mas não se tratava de simplesmente viajar para lá e lá permanecer. A Palermo que conheciam quando eram mais jovens não existia mais. Muitos familiares já não viviam mais lá e muitos vizinhos já haviam morrido. E agora, tinham uma trattoria para cuidar, não podendo simplesmente correr pelas cozinhas das pequenas cantinas sicilianas para petiscar. Agora, diziam-se, tinham “responsabilidades”.

Mas, no caminho da padaria do Joaquim, Bianca e Vito conversavam sobre esta nostalgia, sobre o desejo de retornar às aventuras de quando eram mais novos. Não se sabe de onde, mas veio uma idéia a Vito: por que não largavam tudo e viajavam pelo mundo? Bianca não rejeitou esta idéia, mas colocou-se a pensar. Lagar tudo? Largar o sonho realizado da Trattoria? Deixar tudo para trás?

Vito não tinha dito que deixariam tudo para trás. Lembrou a Bianca que a Trattoria continuaria existindo, e ficaria sob direção do Zio Gino e do Zio Pepe. Além disso, lembrou Vito, já fazia alguns anos que quase somente recebiam os clientes, sendo raro o casal trabalhar na cozinha da Trattoria, a não ser coordenando os empregados. Sugeriu ainda que os clientes mereciam umas férias dos dois, pois era verdade que alguns clientes comiam na Trattoria por educação e consideração com o casal. Que lhes fosse permitido jantar em outros restaurantes ou cantinas, de vez em quando (como Vito e Bianca faziam, sem que ninguém soubesse).

O casal parou ao lado de uma banca de revistas, pouco antes de chegar à padaria. Vito segurava Bianca pelo quadril, e ela envolvia seu pescoço com os braços. Aqueles olhares indicaram que tudo estava decidido. Deixariam a Trattoria. Afinal, o sonho deles permaneceria bem administrado – apesar de que, com o estresse que viveram nos últimos anos, forçando sorrisos e muitas vezes trabalhando sem vontade, a Trattoria já não era como um sonho, parcendo mais um pesadelo. Os olhos de Vito e de Bianca se fecharam, e houve um beijo demorado – naquele momento, eram somente os dois no mundo. Aproveitaram aquele momento, pois logo teriam que avisar a todos sobre o que estavam para fazer, o que vai gerar protestos.

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Continua no próximo episódio.

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Episódio 15 – O nascer de um novo dia

O ambiente estava claro, devido ao sol que nascia. Vito estava enxugando as lágrimas de Bianca, que segurava suas mãos enquanto sorria sem poder se conter.

Vito – Já está amanhecendo… Acho bom tomarmos uma ducha e colocarmos roupas limpas. Então podemos tomar nosso café-da-manhã na padaria do Joaquim, ali na esquina.

Bianca – Vamos fazer isso.

Vito – Bibi… parece que vi você com uma caixinha nas mãos. Era presente de algum cliente?

Bianca já havia esquecido da pequena caixa que Vera Gonçalves havia lhe dado. Tirou-a do bolso e estava prestes a abrir, quando teve um sobressalto.

Bianca – Foi a Vera quem me deu esta caixinha. Achei-a muito misteriosa. Ela disse que dentro há um objeto e que não podia revelar quem pediu para que a caixinha me fosse entregue. Ela disse que eu deveria abrir apenas quando estivesse só.

Vito – Por quê?

Bianca – Não sei. Não pensei em perguntar.

Vito – E o que vai fazer.

Bianca – Não sei. O que será que tem nesta caixinha?

Vito – Estou começando a ficar curioso. Não vai abrir?

Bianca – Não sei se devo. O que você acha?

Vito – Mais cedo ou mais tarde, você terá que abir esta caixinha.

Bianca – Tem razão, meu amor. Mas não quero estragar este momento perfeito, o nascer do sol lá fora. Vamos tomar a nossa ducha?

Bianca deixou a caixinha de lado. Ela queria aproveitar cada minuto daquele momento perfeito que estava vivendo com Vito. E ele pensava a mesma coisa. Era o nascer de um novo dia.

Episódio 14 – Contemplação

Nada mais era desconfiança, nem ciúmes. Nem tampouco estresse ou correria. Debaixo daquela luz, que iluminava apenas a mesa, os rostos e as mãos de Vito e de Bianca, deixando todo o resto do espaço completamente escuro naquela madrugada na Trattoria, o silêncio dominou a conversa.

Naquele momento só existiam um para o outro. Cada um redescobriu aquela pessoa que estava à sua frente, dando início a uma nova contemplação. Não havia cozinha para se preocupar, clientes para agradar, críticos para evitar, empregados para orientar. Não havia nada além dos rostos e das mãos de Bianca e de Vito.

O ar de cansaço dos dois desapareceu, mesmo que estivessem acordados desde cedo (do dia anterior) e tivessem trabalhado intensivamente, como sempre fazem.

Bianca estava radiante. Seus cabelos louros e curtos se distribuíam perfeitamente sobre a cabeça arredondada. Ela usava brincos de diamantes muito sutis, quase imperceptíveis, mas brilhando ao menor movimento. Seu rosto não tinha a menor mancha ou imperfeição. Sua boca estava imóvel, mas parecia vibrar um pouco àquela luz.

Ela olhava para Vito, que recentemente havia aparado os cabelos castanho-escuros. Já despontavam pequenas entradas na sua testa, o que apenas lhe deu um ar de mais inteligência. O que chamava a atenção em seu rosto era seu nariz grande e talhado, estando perfeitamente encaixado entre as faces. Seu bigode bem cuidado com óleo de amêndoas já mostrava alguns fios brancos. Em um dedo de sua mão direita havia um grande anel de ouro e prata.

Vito estendeu a mão para tocar as de Bianca. Os olhos de cada um não se desviou do rosto do outro. O casal deve ter ficado assim por um longo tempo, porque logo começaria a amanhecer. Foi o melhor momento do casal nos últimos meses.

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Continua no próximo episódio.

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Episódio 13 – Vamos abrir uma cantina no Rio?

A madrugada estava avançando, e o casal continuava a conversa.

Vito – Eu não disse a você que eu pretendia comprar o sobrado abandonado para fundarmos uma filial da Trattoria.

Bianca ficou boquiaberta. Tudo fazia sentido para ela agora. Desde quando viviam em Palermo, quando eram muito jovens, Vito e Bianca planejavam ter um restaurante. Além disso, ela sempre sonhava em conhecer o Rio de Janeiro, por causa das histórias contadas por parentes que tinham visitado o Brasil, antes de as famílias do casal se mudarem para cá.

Quando foi decidida a vinda das famílias para o Brasil, sem que ainda tivesse sido determinado o local exato onde iriam viver, Bianca olhou para Vito – sem saber que logo seriam marido e mulher – e disse veementemente: “Vamos abrir uma cantina no Rio! Vamos abrir uma cantina no Rio!” Ela repetia isso sem parar. E acabaram inventando uma música.

Eu nasci na Itália
Sou siciliana
Mas um dia minha mãe me disse
Que eu ia ter que morar no Brasil

Eu nasci na Itália
Sei cozinhar e adoro o vinho
Mas já estou de partida
Para ir viver no Brasil

Vamos abrir uma cantina no Rio!
Vamos abrir uma cantina no Rio!
Vamos abrir uma cantina no Rio!
Vamos abrir uma cantina no Rio!

Bianca compreendeu que Vito não queria alimentar falsas esperanças. Vito sabia que ela era obcecada pelo Rio de Janeiro, apesar de sempre dizer que gostava muito da cidade de São Paulo.

Bianca olhou para Vito. As lágrimas escorriam pelo seu rosto delicado. Não se conteve e disse:

Bianca – Vamos abrir uma cantina no Rio?

Vito – Ainda é cedo para dizer.

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Continua no próximo episódio.

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Episódio 12 – Um sobrado abandonado em Copacabana

Na madrugada, estavam somente Bianca e Vito na Trattoria. As luzes estavam apagadas, exceto uma sobre a pequena mesa em que estavam sentados, frente a frente.

Bianca – Desculpe-me.

Vito – Descupar pelo quê?

Bianca – Apenas diga que me desculpa.

Vito – Não a vejo culpada de nada.

Bianca – Não me comportei muito bem com você nestas últimas semanas. E senti ciúmes de você, quando chegou a Dona Vera Gonçalves.

Vito – Peço que você me desculpe. Talvez eu tenha dado atenção demais a ela. Lembra quando fui ao Rio de Janeiro visitar uns amigos nossos?

Bianca – Sim.

Vito – Um dia estava com eles, caminhando por Copacabana e avistei um sobrado aparente abandonado. Devo ter ficado horas olhando, enquanto nossos amigos se distraíam jogando conversa fora.

Bianca – Um sobrado abandonado?

Vito – Sim. O dono é parente da Dona Vera Gonçalves.

Bianca – Parente dela?

Vito – Sim, parente dela. E… eu não queria dizer agora, mas…

Bianca – Dizer o quê?

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Continua no próximo episódio.

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