Episódio 37 – Crock-sei-lá-o-quê

Finalmente, estamos de volta à Trattoria Testafredda, la migliore de São Paulo. Nada mais de Palermo e suas confusões. De volta à magia da cozinha sob a batuta de Bianca e Vito Testafredda. Zio Pepe e Zio Gino estão felizes com a volta do casal. Aliás, todos estão muito empolgados com a volta deles.

Cláudia e Juvenal apareceram na trattoria, bem no momento em que Vito e Bianca estavam chegando pela primeira vez em alguns meses. Foi um reencontro muito empolgante.

Cláudia – Não é que esta ovelha retornou ao rebanho?

Bianca – É, sim. E com tudo! Casamento marcado.

Claúdia – Hã?

Vito – Hã?

Juvenal – Hã?

Bianca – Com a cozinha!

Cláudia – Ah…

Vito – Ahhhhhh…

Juvenal – Então, vocês dois… por que não mandam fazer um daqueles deliciosos crock-sei-lá-o-quê para comemorarmos?

Vito sai de cena. Bianca chamou o Zio Pepe e mandou:

Bianca – Zio, um crock-sei-lá-o-quê duplo, com trufa.

Zio Pepe – Eu já tinha ouvido… mas, o que é crock-sei-lá-o-quê?

Bianca – Eu é que vou saber? Descubra!

Zio Pepe – Juvenal? Cláudia?

Cláudia – Não sei mesmo.

Juvenal – Eu não sei ao certo. Era assim, nesse formato… meio ondulado, entremeado de alguma coisa… meio quente e meio frio, meio morno… meio salgado, meio doce… um pouco ácido… coberto e forrado… e dourado.

Zio Pepe – Ah, dourado?

Cláudia – É, lembro que era dourado mesmo.

Zio Pepe – Dourado?

Bianca – Dourado, Zio Pepe. Dourado!

Zio Pepe – Dourado…

Zio Pepe sai de cena.

Bianca conversou mais alguns minutos com Cláudia e Juvenal, e depois os acomodou em uma mesa. Chegou o crock-sei-lá-o-quê, que ninguém soube realmente o que era. Mas era bom. Era delicioso! Ainda mais ao lado de uma garrafa de vinho especialmente escolhida por Bianca em sua adega.

……….

Continua no próximo episódio.

Episódio 36 – A aranha na adega

Não, Rubi nunca fora uma “mulher da vida”. Ela o dizia a Carlo para que ele nunca se iludisse. Bianca sugeriu que todos fossem até a cozinha e, chegando lá, pediu que Vito tomasse conta das visitas enquanto descia até a adega. O olhar de Bianca foi preciso, e Vito entendeu que não devia incomodá-la enquanto estivesse na adega, por mais que demorasse lá embaixo.

Binca desceu, então, até a adega. Sentou-se no chão de pedrinhas, em um canto iluminado por uma lâmpada halógena. Estava começando a ficar deprimida e desesperada. Não conseguia compreender o que fazia ali. Sentiu um profundo vazio e não desejava ver mais ninguém. Ela então disse a si mesma:

Bianca – Por que essas pessoas estão na minha casa? Aliás, esta é a minha casa? Sinto falta de São Paulo. Quero abraçar a minha amiga Cláudia. Quero servir um tiramisù para clientes sexies e importantes. Onde estávamos com a cabeça quando resolvemos largar tudo e vir a Palermo. Palermo não existe mais. Ao menos a nossa antiga Palermo não existe mais! Quero voltar para a minha casa. A minha verdadeira casa, em São Paulo. Preciso ligar para a Cláudia…

Bianca tira o celular de seu bolso, e liga para sua amiga Cláudia, que está no Brasil. Depois de chamar algumas vezes, Cláudia atende:

Cláudia – Bibi?

Bianca – Dinha… Por favor…

Mal começou a falar, Bianca entrou em uma crise de choro e não conseguia se controlar…

Cláudia – Bibi? Fala comigo! Bibi? Bibi?

Bianca ainda chorava, soltando gemidos graves. Ela tremia. Sua mãos tentavam sustentar a cabeça, enquanto o celular caía no chão da adega. Bianca se encolhia cada vez mais, sem conseguir controlar sua crise de choro. Ela apenas conseguia dizer “por quê? por quê?”. Inutilmente, Cláudia ainda tentava falar com Bianca, mas esta já não ouvia, pois o celular estava no chão.

No meio do seu desespero, Bianca viu uma coisa que a fez parar. Diante de seus olhos, sob a lâmpada halógena, viu uma aranha descendo por uma teia. A aranha parou no ar, diante de seus olhos, e permaneceu esfregando as patas no fio da teia. A aranha era prateada e brilhava sob a luz. Bianca ainda soluçava, mas conseguira se controlar, tendo se esquecido de tudo para olhar a aranha.

A aranha continuava suspensa no ar, mexendo suas patas, enquanto Bianca a observava, maravilhada. Os olhos de Bianca brilhavam. Seu rosto perfeito encarava a aranha e um leve sorriso era visível em sua boca. Foi capaz de contar e recontar o número de patas que tinha a aranha. Sempre parecia mais do que oito.

O inseto ameaçou subir pela teia, mas Bianca não queria isso. Ergueu a mão, como se quisesse mandar que a aranha parasse. Involuntariamente, disse “não”, num sussurro que, para a aranha e a teia, foram um furacão. O leve sopro de Bianca levou a aranha para o ar, fazendo-a se perder em alguma sombra, para nunca mais ser encontrada novamente.

Bianca ficou profundamente frustrada por ter perdido a única visão que a inspirara nos últimos meses. Pegou o celular e, sem verificar se Cláudia ainda estava lá – pois sabia que estava – disse:

Bianca – Avise a todos que estarei de volta em dois dias.

……….

Continua no próximo episódio.

Episódio 35 – A Sra. Rubi se apresenta

Sunglasses entra na casa de Palermo e é conduzida por Enrico até a biblioteca, onde estão Carlo, Vito, Bianca e a Vidente. Depois de fazer Sunglasses entrar na biblioteca, Enrico fechou a porta. Sunglasses se apresentou, agora, como Sra. Rubi. Tirou os óculos escuros e disse:

Sra. Rubi – Senhores e senhoras, Sra. Rubi se apresentando e pedindo licença para falar.

Ninguém respondeu.

A Sra. Rubi se parecia com uma peça de arte de algum museu europeu. Olhos azuis e cabelos tão brancos que pareciam neve. Vestia uma saia de couro marrom e botas de couro da mesma cor, além de uma camisa branca de seda. Usava brincos de rubis, e duas correntes finas no pescoço, uma de ouro e a outra de prata.

Sra. Rubi – É uma honra estar presente na casa de senhor e senhora Testafredda. Creio que já saibam a história de “Sunglasses”. Explico tudo hoje. A não ser que não queiram saber.

Ninguém disse nada.

Sra. Rubi – Casei-me com Carlo por nenhum motivo além do amor. Reconhecíamos o amor um no outro, inclusive quando ele concordou em não fazer perguntas demais sobre o que eu fazia fora de casa. E não perguntou. Mas, um dia, desapareci. E aqui estou, de volta.

Carlo – Isto não estava em nosso acordo. Você desaparecer.

Sra. Rubi – Eu precisei. As circunstâncias me obrigaram a desaparecer. Estou de volta após uma séria decisão de abandonar a minha ocupação.

Carlo – O que você disse? Vai deixar de ser uma… uma…

Vidente – Ela nunca foi uma “mulher da vida”.

Bianca – Que tal irmos para a cozinha, todos nós?

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Continua no próximo episódio.

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Episódio 34 – Vito permite a entrada de Sunglasses

Enrico repetiu:

Enrico – Vito. Uma mulher está à porta. Disse que se chama Sunglasses. Ela insistiu que eu a anunciasse.

Vito olhou para Carlo, que estava paralisado. Achou que nunca mais veria sua amada esposa. Mas também teve receio de vê-la novamente.

Vito – Mande-a entrar, Enrico. Traga-a até aqui.

Carlo – Onde vou me esconder, Vito? Bianca? Vidente?

Vito – Você vai ficar exatamente onde você está. Se a sua esposa resolveu reaparecer, e logo aqui, deve haver algum motivo. E não posso simplesmente mandá-la embora. Pode ser que ela tenha algo a dizer.

Carlo – Dizer o quê? Que ela foi chutada por algum estrangeiro? Que ela quer voltar aos braços do panaca aqui?

Vito – Cale a boca! É uma ordem! Você está fora de si! Cale a boca, seu desgraçado!

Vito chacoalhou Carlo, e gritou com ele, embora sentindo uma culpa profunda por falar assim com o amigo. Mas era necessário, pois Carlo estava fora de si. Enrico saiu da biblioteca, e foi buscar Sunglasses que ainda esperava à porta.

Enquanto os quatro estavam na biblioteca, Enrico chegou à porta da casa de Palermo, e disse a Sunglasses que podia entrar. Ela disse:

Sunglasses – Carlo está bem?

Enrico – Como a senhora sabe que Carlo está aqui?

Sunglasses – Caro Enrico. Sei seu nome também. Mas esclareceremos tudo na biblioteca.

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Continua no próximo episódio.

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Episódio 33 – A simplicidade redescoberta

Bianca e Vito Testafredda. Este casal de chefes de cozinha, nascidos em Palermo, cultos e informados, viviam uma vida de sucesso no Brasil. Abriram, em São Paulo, a Trattoria Testafredda, onde muitos freqüentavam, desde desconhecidos até celebridades. Todos eram amigos. Todos se sentiam parte da família Testafredda, porque Bianca e Vito queriam que se sentissem assim, desde o momento em que pisassem na calçada da Trattoria.

O casal vivia em um apartamento enorme e luxuoso, confortável e bem decorado. Viveram assim durante anos, até que enfrentaram uma pequena crise, que se resumia a isto: não tinham tempo para si mesmos; não tinham tempo um para o outro. A vida deles era apenas azeite, panela, licor Strega, charutos, mesas, garçons, sobremesas. Eram pedidos, vinhos, conversas, noites em claro. Para quê? Para bem servir.

Fizeram fortuna, é evidente. Mas, quando começaram a ficar conscientes do que se tinha tornado suas vidas, resolveram abandonar tudo, e partir de volta a Palermo. Foi o que fizeram. A Trattoria continuou funcionando, sob os cuidados de Zio Pepe e Zio Gino. Desde que voltaram, estão confusos. Eles pensavam que a volta a Palermo seria algo relaxante e curativo. Mas, ao chegarem, não conseguiram encontrar a Palermo de outrora. Por isso é que permaneceram confusos. Além disso, o casal sentia falta de alguns amigos íntimos, como Cláudia o é para Bianca, e Juvenal o é para Vito.

Esta noite, no entanto, tudo mudaria. Bianca reencontrou a caixinha misteriosa que havia ganhado de Vera Gonçalves, a crítica de culinária, por causa de quem sentira ciúmes de Vito (sentimento não de todo superado). Na caixinha havia uma receita de bolo, das mais simples. Na biblioteca da casa do casal, em Palermo, estavam reunidos Bianca, Carlo, a Vidente e Vito. Este tirou uma surpreendente conclusão sobre a receita: se ninguém mais fazia um bolo tão simples, é porque o mundo se esqueceu da simplicidade. Todos ali concordaram com o pensamento de Vito. Na verdade, o pensamento foi de todos ali, tendo Vito apenas o verbalizado.

Desta simples receita, e da conclusão de que faltava simplicidade, o casal relembrou o que de fato a vida significava para eles. Quando eram crianças, corriam em Palermo, por ruas estreitas, sonhando em serem cozinheiros. Quase tudo o que aprenderam podia ser relacionado aos alimentos que aprenderam a preparar. O casal se perdeu de si mesmo por um tempo, mas permaneceu unido. Agora, reencontraram o que de fato deveria constituir seu estilo de vida: a simplicidade.

Houve lágrimas, abraços e beijos, na biblioteca. Já estava amanhecendo. Enrico surgiu discretamente na porta da biblioteca e esperou até que Vito olhasse para ele. Quando Vito se voltou para Enrico, fez uma expressão alegre, como se falasse “diga!”. E Enrico disse:

Enrico – Há uma mulher à porta. Diz que se chama Sunglasses.

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Continua no próximo episódio.

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Episódio 32 – Uma receita muito simples

Depois de tanto tempo, Bianca não tinha mais tanto interesse na caixinha misteriosa, que havia recebido de Vera Gonçalves, no Brasil. Sem hesitar, abriu a caixinha para ver que em seu interior estava um pedaço de papel dobrado várias vezes. Ao desdobrar aquele pedaço de papel, notou que havia uma receita simples de bolo. Então, Bianca disse:

Bianca – Aquela Vera Gonçalves só podia estar de brincadeira! Ela me deu esta caixinha, e eu pensei que haveria alguma grande coisa dentro dela. Agora, abro a caixinha e o que temos? Uma receita de bolo que deve estar em qualquer livro de receitas. O que ela quer dizer?

Vito – Bianca, alguma coisa isto quer dizer.

Carlo – Vocês são cozinheiros, certo?

Vito – Certo. E daí?

Carlo – Então, um receita combina com vocês. Certo?

Bianca – Mas, como eu disse, esta é uma receita simples. Está em todos os livros de receitas. Acho que é tão simples que…

Vidente – Que…?

Vito – É tão simples, que ninguém mais faz este tipo de bolo.

Ao dizer isto, o próprio Vito teve um sobressalto.

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Continua no próximo episódio.

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Episódio 31 – No bolso do roupão

Algo estava acontecendo. O problema não era o fato de Carlo e a Vidente estarem na biblioteca. Carlo foi trazido por Vito. E a Vidente sabia que tinha a liberdade de entrar e sair daquela casa quando bem entendesse. Era como um acordo silencioso, uma confiança recíproca iniciada entre panelas e garrafas de vinho de uma Palermo do passado.

Bianca foi tomada por uma emoção mais forte do que a curiosidade sobre o motivo da presença da Vidente. Afinal, era Carlo quem estava ali sentado, e ela sentia saudades. Correu em sua direção, enquanto ele se levantava, e o abraçou por um longo tempo. Vito também se aproximou, e agora Bianca estava cumprimentando a Vidente. Vito disse, tentando parecer calmo:

Vito – Vidente, você sabe que é um prazer ter a sua presença em nossa casa. Há algo que possamos fazer por você?

A Vidente, que estava sorrindo, ficou séria de repente.

Vidente – Quero fala sobre este roupão.

Se ela não tivesse ficado séria de repente, todos pensariam a referência ao roupão de Bianca seria uma piada.

Bianca – O que tem o meu roupão? Está sujo? Acho que não, porque estou usando pela primeira vez desde que chegamos.

Vito – Este você trouxe do Brasil?

Bianca – Isso mesmo. Está limpinho.

Vidente (sorrindo novamente) – Claro que está.

Bianca – E então?

Vidente (ficando séria) – O que tem no bolso direito?

Bianca não sabia o que responder. Só lhe restou conferir o bolso de seu roupão. Ela se curvou um pouco para conseguir verificar o conteúdo do bolso. Aparentemente, estava vazio. Mas logo Bianca tocou em um objeto. Rapidamente retirou-o do bolso, curiosa. Quando viram o objeto, o casal ficou boquiaberto, enquanto Carlo e a Vidente se entreolhavam. Era a caixinha misteriosa que Bianca havia perdido.

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Continua no próximo episódio.

Uma ótima receita de bolo está no post “Bolo de Banana“, no blog AGDÁ.

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